sexta-feira, 8 de julho de 2016

Meu Chamado

“Conheces profundamente a minha alma,
e meus ossos não podem ficar escondidos de ti.
Quando lentamente eu era formado, em segredo,
modelado no interior da terra,
teus olhos viam o meu embrião.
E tudo isso está escrito em teu livro:
os meus dias já estavam todos formados,
antes mesmo de chegar o primeiro.” (Sl 139, 15-16)


Compartilho aqui, com meus amigos e familiares, um pequeno relato, bastante sucinto, da minha experiência do chamado para a vida religiosa.  

As palavras são totalmente limitadas para descrever e expressar esta experiência. As palavras apenas apontam, indicam, sugerem: “Não são discursos, nem frases ou palavras; nem são vozes que possam ser ouvidas” (Sl 124, 4-5). Palavras são manchas de tinta no papel ou pixels numa tela, são ondas sonoras transmitidas pelo ar ou reações eletroquímicas no interior do cérebro. No entanto, as palavras remetem a significados que não residem nas palavras em si, mas na mente de quem as escuta, no coração de quem as acolhe. Eu posso fixar pixels na tela do computador, desenhando letras e compondo palavras do léxico da língua portuguesa. Mas eu não posso fixar os significados que estas palavras terão nas mentes e nos corações de quem as lerem. Para muitas pessoas, minhas palavras indicam claramente que sucumbi às armadilhas psicológicas do autoengano e da autoilusão ou até mesmo que ‘surtei’, que deliro. Mas sei também que, para algumas pessoas, as minhas palavras ressoarão como uma melodia conhecida e familiar aos seus corações.

Quando eu tinha dez anos de idade, uma pergunta começou a afligir meu coração: ‘Se Deus é bom, por que existe o sofrimento?’ 

Eu estudava em colégio de freiras, já havia feito a catequese e a primeira Eucaristia. Eu ia à missa aos domingos e todas as noites rezava com devoção as orações que havia aprendido no catecismo.  Eu amava Jesus e depois que recitava todas as orações da noite, eu gostava de conversar com Ele no meu coração. Lembro que, muitas noites,  com o coração contrito, em lágrimas, eu Lhe perguntava: ‘Por quê? Por quê? Por que há tanta dor no mundo?’ 
  
Como eu gostava muito de ler e tinha muita sede de conhecimento, a primeira resposta que meu coração acolheu foi a do cientificismo materialista que encontrara nos livros: ‘Deus não existe, o universo é simples obra do acaso’. Passei a acreditar que o ser humano era ‘uma paixão inútil num universo absurdo’... Meu intelecto me dizia que não havia Deus, havia apenas matéria e que o fim da vida era a morte. No entanto, um universo sem Deus era absurdo demais para o meu coração e eu não suportei.  Quando eu tinha dezoito anos, tentei dar fim à minha vida, acreditando que, com a morte, acabaria o desespero e o absurdo do existir. 

No entanto, sobrevivendo à tentativa de suicídio, minha vida se transformou profundamente. Minha mente e meu coração começaram a despertar para novos sentidos, novas possibilidades. Foi nessa abertura e nessa busca de novos sentidos que encontrei o Espiritismo. Na teoria da reencarnação, eu encontrei, pela primeira vez, uma explicação que me parecia racional para o sofrimento humano;  e com a explicação para o sofrimento, eu pude acolher Deus novamente em meu coração.  A doutrina Espírita me permitiu aceitar a existência de Deus de forma lógica e racional, e a felicidade pode voltar ao meu coração.

A transformação no meu ser e na minha vida foi radical.  Era como se eu tivesse ido dormir lagarta e acordado borboleta. A partir do momento em que compreendi que sou um espírito imortal, que o mundo material é um mundo de sombras projetadas como no mito da caverna de Platão, e que a verdadeira realidade é a realidade invisível do mundo espiritual, minha vida se transformou totalmente.  Era como se o mundo tivesse virado do avesso, como na revelação de uma chapa fotográfica: o que era preto virou branco e o que era branco virou preto. O que era real tornou-se irreal e o que era irreal tornou-se real; o que era tristeza, dor e morte, transformou-se em alegria, gozo e vida.  Deus deixou de ser apenas uma ideia, o conceito de um absoluto abstrato, um criador distante, alheio e indiferente. Ele tornou-se, para mim, um Deus vivo: o princípio e o fim, imanente e transcendente, dentro de mim e além de mim. Meu coração viu que Deus é amor e que tudo está bem, não há nada a temer. 

Eu tinha dezenove anos e a minha vida, a vida como eu a conhecia, havia virado do avesso.  Cristo tornara-se, para mim, o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele me chamava e eu queria segui-Lo com todo o meu coração, com todas as minhas forças, com toda a minha alma: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a propria vida, a perderá; mas quem perder a própria vida por causa de mim, a encontrará” (Mt 16, 24-25).  Eu queria renunciar ao mundo, renunciar a mim mesma e servir ao Cristo. Era tudo o que eu queria.  Assim surgiu em meu coração a vontade e o desejo de me tornar freira para servir ao Senhor em plenitude, para doar a minha vida a Ele e ao serviço aos meus irmãos necessitados e sofredores. Mas o problema para mim era que eu era espírita, eu não era mais católica...  Pensei, então, que essa minha vontade, esse desejo de ser freira, seria apenas uma lembrança de vidas passadas e que eu precisaria encontrar maneiras alternativas de servir ao Cristo no mundo. Então, relutantemente, com grande pesar, abandonei o chamado para a vida consagrada e aceitei viver no mundo. 

Desta forma, por 32 anos, eu vivi no mundo mesmo sentindo, no meu coração, que eu não era do mundo: “Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo” (Jo 17, 15-16).  Fui abençoada com muitas graças ao longo destes anos, a maior delas, a graça da maternidade. Vivi intensamente um grande amor e fui muito amada. Muito recebi e sou eternamente grata a tantas pessoas que cuidaram de mim, que me orientaram e me ajudaram a superar as dores e obstáculos do caminho. Vivi a dor devastadora da viuvez, mas segurando na mão de Deus e confiando plenamente na bondade divina, resisti à dor e consegui forças para prosseguir em minha jornada. Estudei, me formei psicóloga e psicoterapeuta, tornei-me professora, supervisora, pesquisadora... escrevi um livro, publiquei capítulos de livros, artigos científicos... Entretanto, durante todo esse tempo, enquanto vivia todos esses papéis no mundo, meu coração nunca deixou de buscar a Cristo para viver nEle, por Ele e com Ele... Mas era uma busca oculta, que eu vivia no silêncio do meu coração, no segredo das minhas orações. 

Aos dezoito anos, eu havia encontrado no Espiritismo uma forma de vivenciar a fé que satisfazia parcialmente minha razão, que eu conseguia justificar racionalmente. No entanto, a minha vivência no Espiritismo não satisfazia plenamente a minha necessidade de viver uma experiência mística profunda de comunhão com o sagrado e o transcendente.  A ênfase na racionalidade e na intelectualidade, que caracteriza o Espiritismo, me frustrava no íntimo, pois essa excessiva racionalidade limitava o alcance e a profundidade da minha experiência religiosa.

Eu sabia, no meu coração, que a lógica, a inteligência e a razão são limitadas na sua capacidade de explicar o mundo, a vida e o ser. Quanto mais eu estudava e procurava conhecer e desvendar os mistérios da vida, do sofrimento, da consciência e do ser, mais eu me deparava com os limites intransponíveis da razão e do saber humano. Diante dos mistérios de Deus, a razão se calava impotente. Até que, um dia, eu entendi que, embora os mistérios de Deus não possam ser explicados, eles podem ser contemplados.  Aceitando humildemente a impotência da razão,  eu prostrei meu coração numa completa entrega à contemplação dos mistérios da fé.

Essa nova atitude interna de contemplação e aceitação dos mistérios da fé provocou uma transformação radical da minha experiência religiosa. Antigas barreiras impostas pela soberba intelectual se romperam e meu coração se abriu para acolher os significados e sentidos dos ritos e símbolos religiosos. Com o coração transformado, liberto de velhos preconceitos, experienciei nas liturgias, símbolos e tradições da religião católica um novo caminho que me conduziu a um encontro libertador com o  Cristo.  Foi o meu encontro de Damasco.

De volta ao catolicismo, a porta de ingresso para a vida consagrada, que havia se fechado para mim aos dezoito anos, pode ser aberta novamente. Escuto agora, mais alto do que nunca, o chamado para a vida religiosa e, desta vez, ele é irrecusável. Meu coração, em estado de graças, não consegue mais dar outra resposta que não seja o ‘sim’:  “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).

Em outra postagem, contarei como cheguei ao Instituto Religioso Nova Jerusalém e porque escolhi seguir o chamado para a vida consagrada junto a essa comunidade. Se a metáfora para a minha experiência de conversão aos dezoito anos foi a de uma lagarta que morreu para renascer borboleta, a metáfora para o meu encontro com Nova Jerusalém é a de uma borboleta solitária que, finalmente, encontrou seus pares voando alegre e livremente na brisa perfumada de um exuberante jardim! 

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