sexta-feira, 8 de julho de 2016

Meu Chamado

“Conheces profundamente a minha alma,
e meus ossos não podem ficar escondidos de ti.
Quando lentamente eu era formado, em segredo,
modelado no interior da terra,
teus olhos viam o meu embrião.
E tudo isso está escrito em teu livro:
os meus dias já estavam todos formados,
antes mesmo de chegar o primeiro.” (Sl 139, 15-16)


Compartilho aqui, com meus amigos e familiares, um pequeno relato, bastante sucinto, da minha experiência do chamado para a vida religiosa.  

As palavras são totalmente limitadas para descrever e expressar esta experiência. As palavras apenas apontam, indicam, sugerem: “Não são discursos, nem frases ou palavras; nem são vozes que possam ser ouvidas” (Sl 124, 4-5). Palavras são manchas de tinta no papel ou pixels numa tela, são ondas sonoras transmitidas pelo ar ou reações eletroquímicas no interior do cérebro. No entanto, as palavras remetem a significados que não residem nas palavras em si, mas na mente de quem as escuta, no coração de quem as acolhe. Eu posso fixar pixels na tela do computador, desenhando letras e compondo palavras do léxico da língua portuguesa. Mas eu não posso fixar os significados que estas palavras terão nas mentes e nos corações de quem as lerem. Para muitas pessoas, minhas palavras indicam claramente que sucumbi às armadilhas psicológicas do autoengano e da autoilusão ou até mesmo que ‘surtei’, que deliro. Mas sei também que, para algumas pessoas, as minhas palavras ressoarão como uma melodia conhecida e familiar aos seus corações.

Quando eu tinha dez anos de idade, uma pergunta começou a afligir meu coração: ‘Se Deus é bom, por que existe o sofrimento?’ 

Eu estudava em colégio de freiras, já havia feito a catequese e a primeira Eucaristia. Eu ia à missa aos domingos e todas as noites rezava com devoção as orações que havia aprendido no catecismo.  Eu amava Jesus e depois que recitava todas as orações da noite, eu gostava de conversar com Ele no meu coração. Lembro que, muitas noites,  com o coração contrito, em lágrimas, eu Lhe perguntava: ‘Por quê? Por quê? Por que há tanta dor no mundo?’ 
  
Como eu gostava muito de ler e tinha muita sede de conhecimento, a primeira resposta que meu coração acolheu foi a do cientificismo materialista que encontrara nos livros: ‘Deus não existe, o universo é simples obra do acaso’. Passei a acreditar que o ser humano era ‘uma paixão inútil num universo absurdo’... Meu intelecto me dizia que não havia Deus, havia apenas matéria e que o fim da vida era a morte. No entanto, um universo sem Deus era absurdo demais para o meu coração e eu não suportei.  Quando eu tinha dezoito anos, tentei dar fim à minha vida, acreditando que, com a morte, acabaria o desespero e o absurdo do existir. 

No entanto, sobrevivendo à tentativa de suicídio, minha vida se transformou profundamente. Minha mente e meu coração começaram a despertar para novos sentidos, novas possibilidades. Foi nessa abertura e nessa busca de novos sentidos que encontrei o Espiritismo. Na teoria da reencarnação, eu encontrei, pela primeira vez, uma explicação que me parecia racional para o sofrimento humano;  e com a explicação para o sofrimento, eu pude acolher Deus novamente em meu coração.  A doutrina Espírita me permitiu aceitar a existência de Deus de forma lógica e racional, e a felicidade pode voltar ao meu coração.

A transformação no meu ser e na minha vida foi radical.  Era como se eu tivesse ido dormir lagarta e acordado borboleta. A partir do momento em que compreendi que sou um espírito imortal, que o mundo material é um mundo de sombras projetadas como no mito da caverna de Platão, e que a verdadeira realidade é a realidade invisível do mundo espiritual, minha vida se transformou totalmente.  Era como se o mundo tivesse virado do avesso, como na revelação de uma chapa fotográfica: o que era preto virou branco e o que era branco virou preto. O que era real tornou-se irreal e o que era irreal tornou-se real; o que era tristeza, dor e morte, transformou-se em alegria, gozo e vida.  Deus deixou de ser apenas uma ideia, o conceito de um absoluto abstrato, um criador distante, alheio e indiferente. Ele tornou-se, para mim, um Deus vivo: o princípio e o fim, imanente e transcendente, dentro de mim e além de mim. Meu coração viu que Deus é amor e que tudo está bem, não há nada a temer. 

Eu tinha dezenove anos e a minha vida, a vida como eu a conhecia, havia virado do avesso.  Cristo tornara-se, para mim, o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele me chamava e eu queria segui-Lo com todo o meu coração, com todas as minhas forças, com toda a minha alma: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a propria vida, a perderá; mas quem perder a própria vida por causa de mim, a encontrará” (Mt 16, 24-25).  Eu queria renunciar ao mundo, renunciar a mim mesma e servir ao Cristo. Era tudo o que eu queria.  Assim surgiu em meu coração a vontade e o desejo de me tornar freira para servir ao Senhor em plenitude, para doar a minha vida a Ele e ao serviço aos meus irmãos necessitados e sofredores. Mas o problema para mim era que eu era espírita, eu não era mais católica...  Pensei, então, que essa minha vontade, esse desejo de ser freira, seria apenas uma lembrança de vidas passadas e que eu precisaria encontrar maneiras alternativas de servir ao Cristo no mundo. Então, relutantemente, com grande pesar, abandonei o chamado para a vida consagrada e aceitei viver no mundo. 

Desta forma, por 32 anos, eu vivi no mundo mesmo sentindo, no meu coração, que eu não era do mundo: “Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo” (Jo 17, 15-16).  Fui abençoada com muitas graças ao longo destes anos, a maior delas, a graça da maternidade. Vivi intensamente um grande amor e fui muito amada. Muito recebi e sou eternamente grata a tantas pessoas que cuidaram de mim, que me orientaram e me ajudaram a superar as dores e obstáculos do caminho. Vivi a dor devastadora da viuvez, mas segurando na mão de Deus e confiando plenamente na bondade divina, resisti à dor e consegui forças para prosseguir em minha jornada. Estudei, me formei psicóloga e psicoterapeuta, tornei-me professora, supervisora, pesquisadora... escrevi um livro, publiquei capítulos de livros, artigos científicos... Entretanto, durante todo esse tempo, enquanto vivia todos esses papéis no mundo, meu coração nunca deixou de buscar a Cristo para viver nEle, por Ele e com Ele... Mas era uma busca oculta, que eu vivia no silêncio do meu coração, no segredo das minhas orações. 

Aos dezoito anos, eu havia encontrado no Espiritismo uma forma de vivenciar a fé que satisfazia parcialmente minha razão, que eu conseguia justificar racionalmente. No entanto, a minha vivência no Espiritismo não satisfazia plenamente a minha necessidade de viver uma experiência mística profunda de comunhão com o sagrado e o transcendente.  A ênfase na racionalidade e na intelectualidade, que caracteriza o Espiritismo, me frustrava no íntimo, pois essa excessiva racionalidade limitava o alcance e a profundidade da minha experiência religiosa.

Eu sabia, no meu coração, que a lógica, a inteligência e a razão são limitadas na sua capacidade de explicar o mundo, a vida e o ser. Quanto mais eu estudava e procurava conhecer e desvendar os mistérios da vida, do sofrimento, da consciência e do ser, mais eu me deparava com os limites intransponíveis da razão e do saber humano. Diante dos mistérios de Deus, a razão se calava impotente. Até que, um dia, eu entendi que, embora os mistérios de Deus não possam ser explicados, eles podem ser contemplados.  Aceitando humildemente a impotência da razão,  eu prostrei meu coração numa completa entrega à contemplação dos mistérios da fé.

Essa nova atitude interna de contemplação e aceitação dos mistérios da fé provocou uma transformação radical da minha experiência religiosa. Antigas barreiras impostas pela soberba intelectual se romperam e meu coração se abriu para acolher os significados e sentidos dos ritos e símbolos religiosos. Com o coração transformado, liberto de velhos preconceitos, experienciei nas liturgias, símbolos e tradições da religião católica um novo caminho que me conduziu a um encontro libertador com o  Cristo.  Foi o meu encontro de Damasco.

De volta ao catolicismo, a porta de ingresso para a vida consagrada, que havia se fechado para mim aos dezoito anos, pode ser aberta novamente. Escuto agora, mais alto do que nunca, o chamado para a vida religiosa e, desta vez, ele é irrecusável. Meu coração, em estado de graças, não consegue mais dar outra resposta que não seja o ‘sim’:  “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).

Em outra postagem, contarei como cheguei ao Instituto Religioso Nova Jerusalém e porque escolhi seguir o chamado para a vida consagrada junto a essa comunidade. Se a metáfora para a minha experiência de conversão aos dezoito anos foi a de uma lagarta que morreu para renascer borboleta, a metáfora para o meu encontro com Nova Jerusalém é a de uma borboleta solitária que, finalmente, encontrou seus pares voando alegre e livremente na brisa perfumada de um exuberante jardim! 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Autodomínio e Sobriedade

A vida humana se manifesta paralelamente em duas dimensões, em duas realidades que se entrelaçam, que coexistem, que se influenciam mutuamente, mas que são relativamente independentes. Vivemos na dualidade de dois planos de existência: a vida biológica, no plano físico, regida pelas leis da física, da biologia, da química, pelas leis dos homens, da sociedade, da cultura, e paralelamente também vivemos a vida do espírito, que obedece a um conjunto diferente de leis. Esses dois mundos, na vida humana em geral, se opõem, se contradizem, se embatem. O desafio, o aprendizado para o ser humano é o de abraçar essas duas realidades de forma que coexistam em harmonia, vibrando em uníssono, buscando a mesma direção e um só objetivo, que é a vida por Cristo, com Cristo e em Cristo. O apóstolo Pedro nos pede o autodomínio e a sobriedade, a vida em oração e em caridade, no amor e no cuidado ao próximo, no abandono das devassidões, da idolatria, dos exageros das paixões do corpo. Esta é uma tarefa monumental, que exige esforços concentrados, uma vontade firme, uma certeza robusta da supremacia da vida do espírito.

A  vida do espírito é invisível aos olhos materiais, portanto, parece ser mais fraca, pois o ser humano tende facilmente a seguir apenas aquilo que consegue ver, escutar, compreender da dimensão palpável, objetiva, comum, do mundo físico. Seguir a diretriz do espírito requer uma disciplina constante, uma vontade firme e serena, uma disposição interna para o sacrifício pessoal, para a renúncia, para o amor Àquele que tudo cria, que nos doa a vida, que gera o tempo, que nos dá a consciência. O amor e a gratidão à Deus são o motor, a fonte, o combustível para a vida disciplinada, de sobriedade, de oração. O abandono das paixões do mundo requer uma fé no invisível, uma certeza na presença divina, que é maior que os ganhos efêmeros, que os prazeres fugazes do mundo físico.

O mundo espiritual coexiste, convive, perpassa o nosso cotidiano físico, material, de forma invisível, imperceptível aos sentidos. Mas esta presença e esta influência é perceptível pela consciência e pelo coração. Com a mente em prece, com o coração na sintonia do Amor, nos deixamos orientar pela vida do espírito e guiamos nossos passos no mundo pela força da Luz que vem até nós, em nosso auxílio.

Que consigamos vencer o mundo e suas ilusões, na certeza da vida verdadeira do espírito.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Reino de Deus

O coração que encontra Deus se dilata de amor, de adoração, de gratidão. Encontrar-se com Deus nos prostra na impossibilidade de guardar qualquer outro sentimento no coração que não seja de louvor, de adoração, de amor. Ao abrir o coração para escutar a voz silenciosa de Deus somente um sentimento invade o ser: o maravilhamento, o deslumbramento, o êxtase diante desse poder indizível, indescritível. A oração é o momento em que a alma abre o coração para ser tomado por este sentimento de adoração, de amor e de louvor. Não há espaço no coração para nenhum outro sentimento, tudo se transforma em graças, em gratidão indizível, em louvor, em adoração àquele que é puro amor, bondade, justiça, sabedoria, misericórdia e paz. Todos os outros sentimentos, em sua pequenez, em sua insignificância, se dissolvem, são aniquilados, invadidos e tomados pela graça do amor. O amor a tudo, a todos. O amor que nos torna Um com toda a criação, o sentimento que ao ser descrito em palavras se limita, se restringe, pois é um sentimento anterior a qualquer palavra.

Na vida em oração, esse sentimento de amor, de adoração, está presente continuamente. A cada instante, tudo é feito, tudo é pensado, tudo é dito a partir desse sentimento, deste estado de comunhão. A vida em oração é a vida que flui, que pulsa, que vibra a partir do Amor de Deus. A oração alimenta a alma com o pão celeste, nutre o ser em suas profundezas ao ampliar a conexão com o Amor Divino. 

Na oração, as portas do coração  são escancaradas e a presença do Pai de Amor é sentida com maior intensidade. Mas ao retomarmos nossas atividades habituais do cotidiano, nós facilmente fechamos as portas do nosso coração e nos sentimos famintos, pobres, cansados, carentes. O esforço da vida em oração é o de deixar a porta escancarada constantemente para que nunca mais se feche, para que a vivência da graça, do amor, seja inabalável e constante. Mas as distrações do mundo, os apelos da matéria, as necessidades biológicas chamam a nossa atenção e, desatentos, deixamos as portas se fecharem. Por isso, a oração deve se unir à vigilância, para que a sintonia do amor, para que a expansão do sentimento, para que a abertura do coração permaneça sempre, pois essa é a vontade do Nosso Pai que está nos Céus.

Se o ser humano, ao invés de buscar tão desesperadamente, ansiosamente, o pão da carne, o alimento material, dirigisse, canalizasse esses esforços, essa busca, para o pão do espírito, o mundo se transformaria por completo e a vida humana se tornaria uma vida santificada na luz, na presença de Deus. Buscai primeiramente o Reino de Deus e tudo o mais lhe será dado por acréscimo. Infelizmente, o ser humano ignora os ensinamentos do Cristo e vive de maneira oposta, buscando primeiramente o reino material, os seus prazeres e confortos, acreditando que o reino de Deus lhe será dado por acréscimo, quando sobrar tempo, nas horas vagas. Ou então, busca-se a Deus na dor, na aflição; quando as necessidades materiais não conseguem ser atendidas, então, o ser humano volta-se para Deus.

Tanto sofrimento seria evitado se escutássemos e seguíssemos as palavras do Nosso Redentor: Buscai primeiro o Reino de Deus e sua Glória. E o Reino de Deus nós buscamos inicialmente na oração. É através dela que temos a clareza e o discernimento das ações, das palavras, das atitudes que devemos tomar no mundo. Se não estivermos com o coração de portas escancaradas na oração, no louvor, no amor, nossos atos e palavras, nossas atitudes não nos levarão ao Reino de Deus, mas nos conduzirão ao reino dos homens.

Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Aí está toda a Lei. Obedecei.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A Luta entre o Bem e o Mal

Cada dia que inicia em nossas vidas é uma benção, oportunidade renovada que nos concede o nosso Pai de Amor. Que possamos acolher a dádiva de cada dia com o reconhecimento da imensidão, da grandiosidade dessa graça. Possuir um corpo, habitar esse planeta, viver imerso num mundo de necessidades materiais, trabalhar, conviver com outros irmãos, são oportunidades únicas, de valor inestimável. No entanto, o ser humano, de maneira geral, principia o dia no automatismo biológico e mental, levando adiante os hábitos, cumprindo as tarefas, buscando a satisfação de necessidades e prazeres do corpo e da mente, sem ter a consciência  da verdadeira dimensão, do sentido profundo da labuta de cada dia e da vivência de cada amanhecer. Quando a consciência está desperta, cada novo amanhecer, cada novo dia, é recebido com imensa gratidão, com assombro, com enlevo, com sentimento profundo de graças ao Pai pela dádiva do tempo, da vida corporal, do aprendizado e da renovação de cada dia e de cada instante.

A consciência desperta nos permite ver além das aparências do sentido comum, nos torna conscientes das responsabilidades, das consequências dos automatismos, e nos torna vigilantes de cada pensamento e das atitudes que brotam do nosso coração. Quando a consciência desperta, as faltas para com a Lei do Amor são sentidas com profundo pesar, mas também as alegrias do Amor Divino são sentidas mais vividamente, mais intensamente.

A cada dia, no planeta, bilhões de almas coabitam, interagem, coexistem. Cada qual em seu momento pessoal, particular, de aprendizado e de abertura consciencial. Milhões estão ainda adormecidas, vivendo simplesmente nos automatismos biológicos e mentais, vivendo cada dia no horizonte limitado pelas necessidades biológicas e pelas pulsões dos instintos. Mas no meio  delas, espalhadas por toda o planeta, há também milhões de consciências já despertas, em diferentes graus, que procuram a Deus, que buscam a verdade, que sentem a necessidade do amor e da transcendência. Nessa convivência de espíritos adormecidos e espíritos em diferentes graus de despertamento, é que se trava aquilo que é chamado de 'a luta entre o bem e o mal', ou o combate da luz com as trevas.  Por todo o planeta, em cada interação humana, em cada espaço de convivência, ocorre essa disputa pela primazia do espírito e pelo domínio da carne: os instintos, os impulsos do orgulho e do egoísmo resistindo aos chamados para a renúncia e o desapego, resistindo às pulsações do amor.

Como o amanhecer que lentamente, gradualmente, se insinua, se anuncia e se faz presente dissipando  o véu da noite e preparando para o despertar do novo dia na potência irradiante do sol, que transborda o planeta de vida, de luz e de calor, assim também os embates cotidianos entre a noite e o dia, entre o sol e a escuridão, serão vencidos inexoravelmente pela majestade irresistível do Amor. Toda a treva será extinta quando o sol glorioso do Cristo no seu Evangelho de amor e libertação brilhar majestoso no céu de todos os corações. 

Vivemos a ante-hora do amanhecer, sentimos o inquietamento da natureza e do ser que pressentem a mudança, o despertar, o alvorecer. Tenhamos sempre o bom ânimo, confiantes, na certeza do sol que nos aguarda por detrás do horizonte, na paz e quietude da alma que se alegra ao aguardar a alvorada da nova vida.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O Chamado

A fé é a fortaleza do espírito.

A fé vem do espírito que é tocado pela Misericórdia e Graça do Pai, a fé não vem dos homens. A fé não é um conjunto de dogmas a serem seguidos, a fé não é um corpo doutrinário a ser obedecido, porque os dogmas e as doutrinas são dos homens. A fé é a fortaleza do espírito que vem diretamente de Deus. A fé se escuta como um chamado no coração e se revela aos olhos na visão espiritual da realidade suprema. A fé fortalece o espírito na sua labuta cotidiana, nos percalços, nos obstáculos, nas armadilhas do caminho. A fé não é cega, porque a fé é luz; é luz que revela a verdade por trás das aparências e a realidade por trás das ilusões. A fé de Paulo foi despertada em seu encontro direto com Jesus Cristo, que o chamou. A visão do Senhor transformou o coração de Paulo, despertando nele o apóstolo destemido, apaixonado, desbravador, forte na certeza da fé que lhe foi despertada pelo próprio Cristo.

Cada um de nós possui seu momento pessoal de despertamento da fé, quando Nosso Senhor Jesus Cristo vem diretamente a cada um de nós nos chamar para o apostolado da verdade, da palavra de vida eterna. Cristo toca nossos olhos e com a visão espiritual subitamente vemos tudo com clareza, compreendemos o que Deus quer de nós. Com alegria profunda, que apenas a fé verdadeira pode trazer, nós acolhemos o chamado na certeza de que agora nossa vida se plenifica de sentido. Neste momento, tudo o mais que vivemos neste mundo torna-se apenas momentos de preparação para o sim.

Como os noivos se preparam por longo tempo para vida no matrimônio, preparando a nova morada, desfazendo-se de velhos laços e compromissos para assumir o compromisso sagrado e eterno da vida em comunhão com o seu parceiro no amor, assim também aquele que é chamado para o matrimônio espiritual, para a comunhão no Amor Divino da vida missionária precisa se preparar, preparar sua nova morada, desatar os laços e compromissos que o prendem à vida comum, junto aos homens, na descrença, no abandono de Deus e da Lei do Amor.

Quando os preparativos terminam, é a hora do sim, do novo compromisso que se estabelece na alma com o seu Criador. A fé é o laço que nos une ao Criador, laço indestrutível, que nos fortifica, que pacifica o espírito e que revela o caminho a seguir a cada dia. O destino final a Deus pertence, mas o espírito imerso na fé confia e nada teme, e se entrega a este matrimônio, a este compromisso com o seu Esposo, em êxtases de amor e alegria na promessa da vida plena.

Que os apóstolos do Cristo que vieram antes de nós nos fortaleçam no nosso chamado de hoje. Que a fé no Nosso Senhor Jesus Cristo, Nosso Salvador, Nosso Redentor, remova as montanhas de pecados de nossa alma.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O Perdão do Cristo

O autoconhecimento é a chave fundamental para a abertura do ser interior para receber as Glórias Divinas. Conhecer-se é reconhecer-se pecador, é reconhecer a imensidão das faltas, das ofensas para com a Lei Divina: “a humildade é a verdade”. Aquele que se conhece, sabe da imensidão dos seus erros, das suas imperfeições, dos seus vícios, das suas faltas. Se conhecêssemos tudo o que há em nosso ser, seríamos certamente aniquilados pelo sentimento de culpa. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo veio até nós para nos trazer a Misericórdia,  a libertação e a cura dos nossos pecados.  O Amor do Cristo nos perdoa. Seu Amor por nós, que se manifestou como sacrifício, como martírio, na Sua paixão na cruz, em que ofereceu o Seu sangue por nós, Seu Amor vem até cada um de nós do alto da Sua cruz, olhando-nos com bondade e Misericórdia, pedindo ao Pai que nos perdoe pois não sabemos o tamanho, a imensidão e as consequências de nossas faltas.

Senhor, trazemos em nós uma montanha de iniquidades, dia após dia, noite após noite, em desobediência à sua lei, somos recalcitrantes no orgulho, na rebeldia, buscando o nosso próprio prazer antes da obediência à Sua Lei, regidos pelo amor próprio, pelo narcisismo, pelo orgulho e pelo egoísmo.  A lista, a relação dos nossos momentos de pecado, de faltas para com a Lei, é colossal, impagável. Somos teus devedores, Senhor.  Perdoa-nos, Pai, e não nos deixe pecar mais. Liberta-nos do mal e que, ao receber a dádiva e a graça do seu perdão, nós nos transformemos como a pecadora que lavou os Vossos pés com suas lágrimas de gratidão. Que nós nos transformemos, abandonando nosso eu pecador, orgulhoso, arrogante como o fariseu, e tenhamos a humildade de apenas nos prostrar a seu pés e chorar, chorar, porque não somos dignos do Vosso perdão.

Mas Senhor, Vós nos perdoa e nos ama não por sermos dignos, não por sermos merecedores, mas porque Vosso Amor é Incondicional.  Vós conheceis todos os nossos pecados e, ainda assim, estende a Sua mão, o Seu sorriso, nos olha com piedade e nos chama para junto a Si, para lhe fazer companhia em seu Reino de Amor. Sim, Senhor, queremos segui-Lo e não queremos pecar mais.

Queremos transformar a nossa morada interior em um castelo de luz para nele habitar a Vossa Majestade, o Senhor do Mundo, e para viver em obediência, em servidão na vida plena de amor, na realização da Vossa Vontade. Eis-me aqui, Senhor, aos seus pés, indigna do seu Amor, mas trago o meu coração repleto de amor por Vós, trago as minhas lágrimas de arrependimento e de gratidão e beijo os Seus pés e sinto a vida invadir o meu ser e me levar ao seu Santuário, envolvida no Seu Amor. Que o Nosso Senhor Jesus Cristo seja louvado, que sua Paz esteja em nós!    

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Mandamento do Amor

Aquele que ama a Deus, cumpre os seus mandamentos. E os seus mandamentos são leves: todos os seus mandamentos se resumem à Lei do Amor. O amor é leve. O amor liberta a alma do sofrimento, da dor.  O amor levanta o coração caído, desmotivado, desanimado. O amor traz a vida, o alento, a alegria ao coração descrente de sentido. O Amor é o Mandamento de Deus, é tudo o que ele nos pede: que amemos Aquele que nos gerou e que amemos tudo o que Ele gerou, toda a sua criação, todos os seus filhos.

Amar a Deus é amar os seus filhos. O Amor é o sentimento que abre nosso coração para receber tudo o que nos rodeia, tudo o que percebemos, tudo o que está presente em nossas vidas. Amar um desconhecido, significa louvá-lo como filho de Deus, bendizê-lo, irradiar sentimentos de ternura e compaixão, contemplar, em prece, essa pessoa que não conhecemos, mas que sabemos que Deus a ama, que Jesus a ama. Por isso nós também a amamos.

Amar a Deus é amar os que nos ofendem. Amar nossos inimigos também é leve, pois nos liberta do rancor, da mágoa, da dor da ofensa. O perdão nos une a Deus,  pois ao perdoar também somos perdoados.

Amar a Deus é amar toda a natureza, a obra divina, o universo perfeito, sublime, além da nossa compreensão, inconcebível em seu esplendor e grandeza. Amar o universo amplia nossos sentimentos, dilata nosso coração na contemplação do poder inconcebível que transcende nosso mero entendimento.

E amar a Deus é também amar a nós mesmos, seus filhos, criados à sua imagem e semelhança. No centro do nosso Ser, Deus depositou Seu diamante, uma Centelha de Luz, Sua fagulha, e desse centro irradia a Sua verdade. Nesse centro Ele mora e habita, se faz presente em nossas consciências, nos recordando, nos trazendo vislumbres do que é a vida em comunhão com o Pai. E do centro do nosso Ser, em nosso coração, Deus pulsa no amor, Deus vive no amor que vive em nós.

É amando que comungamos com o amor de Deus. É amando que nos tornamos Um com o Pai. É amando que vibramos em uníssono na harmonia e melodia da sua criação e nos tornamos co-criadores, colaboradores, participantes de sua obra.

Amai-vos uns aos outros, amai o seu próximo como a si mesmo, amai a Deus sobre todas as coisas. Esta é a Lei, este é o Mandamento. Para isto, existimos. Este é o nosso destino e nosso começo. O princípio, o fim e o meio: Amor.